Hoje eu estava conversando sobre a vida e escutei a seguinte frase: “nossa, minhas amizades nunca foram assim”. Infelizmente isso não foi dito num sentido positivo, e sim no sentido “a forma que você lida com suas amizades é muito complicada”. Ora, pode até ser complicada, mas será que complexidade em relações é intrinsecamente ruim? Da onde isso vêm?
É fácil dar uma resposta rápida para esta pergunta:
-O quanto menos complicadas suas relações forem, você está consequentemente contribuindo para tornar sua vida menos complicada, e uma vida simples é uma vida feliz.
Tenho objeções a uma resposta assim. Uma vida simples pode se resumir a de um preso em um presídio federal. Horários fixados, rotina rígida, e ausência da liberdade. Dificilmente alguém me convenceria que isso não é uma vida “simples”, e ainda que tenha alguns que possam alegar que seja verdadeiramente uma vida feliz, não vejo como alguém pode ser feliz com a ausência quase que total de liberdade.
Podemos então ao menos concordar que a simplicidade não é um fator único para a felicidade. Agora consigo imaginar duas direções que posso guiar este texto, uma é discutir sobre possíveis fatores que levam a uma vida feliz, e outra é continuar discutindo sobre a simplicidade. Considerando a introdução deste texto ser mais sobre “complexidade versus simplicidade”, vou me ater ao segundo caminho, ainda mais que ainda não quero nem me arriscar a “ditar” regras sobre “como ter uma vida feliz’, estou longe de ter uma resposta definitiva para isto.
Bem, agora podemos ser um pouco mais incisivos, o “culto” a simplicidade é válido? Simplicidade em si é superior a complexidade? Mais uma vez vou me interromper e ter que escolher um caminho. Posso facilmente imaginar situações onde inquestionavelmente a simplicidade é superior a complexidade, e aqui defino “superioridade” como algo que traz maior satisfação para o indivíduo que enfrenta a situação. Ou seja, dada duas situações semelhantes, se uma é complexa e outra simples, qual traz maior satisfação para aquele que se encontra nela? Posso dar dois problemas que mostram que não existe uma resposta fixa para esta pergunta.
- Você parte de um ponto A e quer chegar até um ponto B, no caso ponto A poderia ser sua casa, e o ponto B poderia ser algum evento que você deseja muito comparecer, não existe nada mais satisfatório do que comparecer a este evento neste momento. É muito mais satisfatório para você, se para chegar ao ponto B, a rota fosse a mais simples possível, no sentido de você ter que seguir o menor número de instruções possíveis. E seria muito menos satisfatório se ao invés de só seguir uma rua, você tivesse que passar por três ruas, virar a esquerda, direita, etc.. Mesmo que o tempo de chegada fosse o mesmo.
Nesta situação fica claro a “superioridade” da simplicidade sobre a complexidade. Vamos para a segunda.
- Você está infeliz, e procura alguma atividade para fazer que alegre seu dia. Em uma situação simples você só tem 1 escolha de atividade, que, essencialmente lhe alegra. Em uma situação complexa você possui uma gama de atividades, que juntas trabalham para alegrar seu dia. Um apressado diria que a situação simples possui a superioridade, porém, acho que alguns podem concordar comigo, que uma gama de atividades pode, e muitas vezes traz, maior satisfação.
O problema de enxergar a “superioridade” da complexidade aqui, é que falta um toque de realidade. Na realidade, dificilmente você terá uma atividade que 100% das vezes lhe deixará satisfeito, e mesmo que exista, dificilmente esta satisfação seria igual do que uma complexidade de atividades. Ou seja, no mundo real, em algumas situações, complexidade traz mais satisfação.
Com este apelo a realidade, acho que podemos concordar que uma defesa da complexidade para algumas situações é válida, e considerando a introdução do texto, vamos discutir isso no âmbito de relacionamentos pessoais.
Acredito que depois do segundo exemplo, quando se trata de relacionamentos pessoais, a complexidade derruba a simplicidade em quase todas as situações. Claro, talvez se considerarmos o relacionamento com o padeiro da rua, que é meramente a utilidade de comprar alimentos periodicamente é melhor que seja simples, embora que ainda assim é possível imaginar situações complexas que até mesmo com o padeiro, seria benéfico na mera satisfação de adquirir alimentos, mas não estou aqui para defender isto.
Se considerarmos a complexidade e simplicidade para amizades, ora no mundo real, uma amizade simples é aquela que não investimos muito, que conversamos pouco, conhecemos pouco, confidenciamos pouco, consequentemente nos satisfaz pouco. Como um mero amigo de trabalho ou da faculdade, que de vez em quando contamos sobre o dia e fazemos algumas piadas. Já uma amizade complexa, novamente, no mundo real, é aquela que já investimos muito, que dadas vezes conversamos muito outras pouco, conhecemos muito mais, confidenciamos mais, e em bons momentos, nos satisfaz de maneiras imensuráveis.
O problema da complexidade nas amizades é este, lhe faz pensar, considerar, é difícil saber exatamente quando é bom e quando que é ruim, quando vale a pena e quando não vale mais, nos arrependemos, nos divertimos. Procura-se hoje em dia um mundo estoico de simplicidade, sem muitas emoções, sem decepções. Ninguém quer estar infeliz, e ninguém percebe que o risco de ser infeliz é necessário para um verdadeiro momento de felicidade.
É impossível fazer o exemplo deste estilo de vida, pois quando perdemos, todos enxergam nossa tristeza e criam aversão, porém dificilmente conseguem diferenciar nossa felicidade da deles. No entanto, quem já viveu das duas maneiras sabe a diferença de uma verdadeira sentimento de prazer, e um sentimento de prazer vazio.
Texto dedicado a minha amizade mais complexa, M.
~C
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